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Eu fui surda por um dia

domingo, julho 08, 2012


Ontem dia 07 de julho de 2012, fui ao encontro de Surdos e Intérpretes em São Paulo na Assembléia de Deus do bairro Belenzinho.

Surdos recebiam crachás amarelos e ouvintes recebiam crachás verdes. Eu preenchi minha inscrição como sendo surda e recebi meu crachá amarelo. As crianças também receberam crachás amarelos. Combinamos que eles seriam filhos de uma surda naquele dia, já que sabem um pouco de Libras.

Apesar todo o aparato e respaldo de intérpretes que sabiam e conheciam muito bem Libras, o cara da livraria não conseguiu me vender um livro porque não entendia nada do que eu sinalizava. Por mais que eu fizesse sinais simples, caseiros, NADA. E ainda comentou com o amigo dele: "Eu não entendo nada dessa mímica que os surdos-mudos fazem." - MÍMICA? MUDOS? Ele já deveria saber o que é Libras e que pessoas surdas NÃO SÃO MUDAS Helloooooooooooooooooooooooooooo!!!


Outra hora desagradável foi quando nos dirigimos ao refeitório. O organizador da fila não sabia falar português direito, imagine Libras, de tão grosso que era. Eu tentava explicar que estava com as crianças, que elas eram ouvintes, não queria me separar deles, também estava com o meu olho esquerdo recém operado e não queria me separar do grupo das minhas alunas ouvintes. Ele nem deu bola para o que eu falei e fez sinal para afastar. Eu fiz que não entendi, como sempre acontece com os surdos. Ele muito grosso e sem paciência, simplesmente me empurrou para trás. Eu tive vontade até de chorar na hora ou avançar no pescoço dele, mas não podia. Eu era surda naquele momento.


Foi então que apareceu um moço para amenizar a situação e eu tentei me comunicar com ele. Mas ele não sabia Libras. Disse para a organizadora ao lado: "Eu sempre bóio com esses surdos. Corre lá e chama um intérprete". Mas minhas amigas ouvintes me "ajudaram" e pudemos entrar todos juntos.
  
Terminado esse incidente. Subimos para a palestra e contei tudo a uma organizadora do evento o que tinha acontecido. Ela foi muito gentil, disse que iria levar isso adiante, que essas coisas não podem acontecer, etc. Mas ela era surda. Fiquei junto com ela pra ver se ela iria levar adiante mesmo Ela até que tentou, mas toda vez que ela tentava explicar o acontecido a um intérprete ouvinte, eles estavam ocupados. Senti desprezo da parte dos intérpretes ouvintes ou talvez tenha sido impressão.

E o que me deixou mais triste, foi em que numa das palestras, ouvi que os ouvintes começam a frequentar a comunidade surda e ficam nela por mais ou menos quatro ou cinco anos. Tempo suficiente para aprenderem Libras e simplesmente desaparecerem. Como assim? Surdos se apegam, se tornam amigos, se propõem a ensinar a Libras e depois são esquecidos? Então não foi impressão quando senti desprezo da intérprete ouvinte em relação à organizadora surda que ouviu minha queixa. Esta intérprete ouvinte deveria ser uma das que estão abandonando a comunidade.
O encontro valeu à pena, aprendi vários sinais, conheci vários surdos, mas percebi que estamos muito mais atrasados do que imaginei.
Eu gosto muito da companhia dos surdos, de bater papo, muito mesmo. Uma pena os ouvintes quererem se aproveitar de uma comunidade que luta para ter seus direitos reconhecidos.

Mas vou continuar lutando.

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